sexta-feira, 14 de maio de 2010

O inferno são os outros!






Caminho por uma fase sartreana. Proposital por um lado, atraída por outro.
Comecei a ler por ter a facilidade de encontrá-lo a poucos passos do meu aposento. Meu companheiro de casa faz coleção de livros. Sofre de rinite, mas abre um sorriso ao olhar para a poeira juntada. Porém, eu não contava com a identificação que teria com o existencialismo quando colocado assim, em diálogos.
Assim, comecei com Náusea, passei por A Idade de Razão e acabo de ler Entre Quatro Paredes.
Este último escrito, que se apresenta em forma de peça teatral, é de uma sensibilidade intrigante. Em poucas palavras, direto e simples, Sartre desvenda sua famosa frase: “O inferno são os Outros!”
A história se passa no inferno. Mas longe das descrições dantescas, com fogo, tortura, carrasco, o inferno de Sartre são, literalmente, os outros. É um espaço vazio, sem camas, escova de dente e espelhos. A luz não se apaga, é sempre dia. Um eterno ver e ser visto. Não há sono, nem fome e nenhuma possibilidade de fuga do momento presente. São apenas três humanos, ou ausentes, ou desencarnados, ou qualquer outro nome. A religião aqui não importa, a sensibilidade está na impossibilidade de fuga. No viver (?) constantemente, às claras e para sempre na presença de mais duas, apenas duas, pessoas.
Não há espelho. A afirmação que ele nos provoca, quando olhamos aquilo que pensamos ser e obtemos a confirmação, não é mais possível. A confirmação vem dos outros. A imagem é capturada somente pelas retinas. É lá, no olhar do outro, que existimos. E é conforme a opinião do outro que nos posicionamos.
E não há descanso, sonhos, fantasia que nos levem para outro momento. Só há aqui e agora. A persona não consegue ser sustentada por muito tempo. Em pouco, brota uma nudez psíquica, onde os crimes, as falhas, os defeitos são apresentados.
A higiene que faz o convívio humano possível, apesar de não mais necessária, faz falta. Cadê a escova de dente? Como viver sem ela? Apegos tidos como pequenos se tornam um conflito. É a nudez psíquica e física.

Afinal, pra que fogo?

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