quinta-feira, 12 de maio de 2011

Vai, mas vem.

Nada melhor que dormir.
Sempre gostei das horas que passam enquanto roço meu corpo pelos cantos da cama.
Você diz que o melhor é acordar cedo pra ter tempo de dormir depois. Acho estranho, mas entendo o teor deste gosto invertido. Por fim, sempre lhe questiono pra não ter que reformular uma das frases mais típicas do meu eu. Eu gosto de dormir e dormir, sem pausas.
Mas me pareceu melancólico pensar que hoje, que ontem e que amanhã, enquanto você viaja pra longe, que de tão longe me perco no meu mapa múndi imaginário, a hora mais feliz dos meus dias têm sido a hora em que me permito dormir.
Pois é somente aí que não vejo mais nada, que o tempo passa mais rápido, sem precisar de muito esforço.
Eu sou forte, repito, mas descobri que sentir o desconforto atrapalhado do amor é mais.
E acima de todos os mais, está a falta que você desenha em mim.
E dia a dia vou dialogando com a minha esquizofrenia, gostando de cruzar com você em cada passo que dou. Em cada detalhe tão pequeno de nós dois, afinal parece que o Robertão anda me entendendo nesses últimos dias.
E quando a sua imagem me toma o corpo e desejo tocar os meus pêlos, enquanto imagino formas de me inundar, a vontade é de beijar toda a sua carne e sentir o cheiro do seu suor. Pulsa o desejo de intensamente lamber o seu gosto e gemer pra você. Dançar o meu corpo sobre o seu e finalmente gemer por você.
“Que culpa a gente tem de ser feliz?”
E dou risada quando vejo que na tentativa de lhe escrever, apagando e escrevendo estas linhas por me achar clichê, não consigo fugir de certas expressões.
Não consigo não falar da cama que de repente ficou tão grande, do lençol amassado por não ter sentido arrumá-lo, da sua calça no mesmo lugar todos dias, indício de que seus pernas caminham por outras portas que não as daqui.
Mas além de toda melancolia do disco riscado que compreendo enquanto a rede balança, enquanto chove lá fora, queria lhe dizer algo maior.
Queria lhe dizer que esta tristeza que lhe falo agora tem sempre um sorriso escondido.
Que é como o mar e a areia. Um deles vai embora e o outro aparece. Um vai. Outro vem.
É dizer que a certeza do meu amor por você cresce de maneira desenfreada, que a vontade de ser sua, somente sua, é a flor que quero cultivar com as duas mãos. Colocar água todos os dias e vê-la tomar conta do jardim inteiro.
Que o que queria mesmo que soubesse, é que este amor é tudo. Tudo aquilo que não sonhei, pois não sabia que era possível. Que me torce na queda de braço para depois me abraçar e dizer que juntos, distraídos, nós conseguimos. Juntos construímos a coisa mais linda das mais lindas que já conhecemos.
Vamos vencer estes dias para viver o resto daqueles que estão destinados a nós dois.
Falta pouco, depois do tempo que já esperei para lhe encontrar.
Falta pouco.

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Tu quer. Eu querendo.

Os toques dados sem querer querendo.
As palavras medidas que entregam o que não se mede.
Os olhares que se perdem por dentro.
Os jogos de armar.
A tocaia.
O bote.

terça-feira, 16 de novembro de 2010

Mas...deixa pra lá.


Mais um feriado passa. A república é lembrada por um momento, se é lembrada. Ao voltar para a cidade, ao lado do companheiro que me cedeu um lugar no seu automóvel, pergunto a ele qual som mais gosta de ouvir. Uma regra básica da carona é manter a conversa ativa, aproxima as pessoas, não deixa o silêncio dar ideias. Porque o silêncio dá ideias.
Ele prontamente respondeu: - Gosto de música internacional.
Olhei para a janela molhada da chuva de novembro, pensei, olhei para ele, deixei a boca entreaberta para continuar a conversa, pensei mais um pouco e sorri. Música internacional.
Vamos manter a primeira impressão e não perguntar de que tipo.

Todo mundo é uma ilha. Ou um aquário.


Egoísta que sou, não consigo me livrar da mania autobiográfica das letras. Se fizesse música, se chamaria “eu” e se escrevesse um livro seria “meu”. Mania de viver dentro do aquário, de pensar que sou um peixe, observando as pessoas de longe enquanto passam carregando pianos nas costas e cantando com olhares perdidos. Eu gosto de pessoas felizes, mas ultimamente vejo tão poucas.
E eu também não sou um peixe.
Astrologia é apenas história pra dormir. E sonhar.

domingo, 25 de julho de 2010

Conte-me uma boa.


Mas, me conta uma boa, ele repetia.

Calou-se por uns segundos e desviou o olhar. Ato que ele quisesse ou não representava uma essência, um modo operante e distante de existir. E no fundo, ela não desejava superá-lo. Gostava do refúgio do horizonte, como quem bebe aos lentos goles uma bebida doce e quente em dias de inverno. E a sua pergunta-afirmação sempre vinha por sedex, dizendo eu quero e quero agora, diga as respostas que lhe surgem, que nem ao menos precisam ser respostas. E ela, sinceramente, desejava lhe contar tantas tantas coisas que pensara outrora, na sua casa de longe, ou que pensava agora, com o frio na barriga típico dos momentos de desejos insaciáveis. Desejava dizer o que sentia, que no meio de tantas letras misturava-se entre impressões reais e sensações desejadas. É, ele sabia sobre aquilo que o sujeito pensa que é, mas que pode ou não pode ser, mas que ao dizer fica a dica, sabe. No fundo, ele também se sentia assim. E mesmo com todo ama, todo não-ama, ela queria mesmo contar como se sentia e como todos os ipês cor-de-rosa se tornaram mais bonitos neste ano. E ao iluminar o fundo do seu mundo, abrir a porta que permanece encostada e depois aquela que permanece trancada e depois aquela em que se encontra escrito: perigo, o refrão de bolero é apenas um refrão!

Olhou de novo para aquele rosto de espuma, suave e delicado. Repetia a pergunta mudando o tom, um pouco para se convencer, outro para ganhar tempo no tempo: “contar uma boa?”.

“Ah, já sei, vou te contar uma boa”.

Conheci uma pessoa, com cheiro de roupa limpa e com mente bagunçada. Tenho vontade de lhe rasgar por inteiro, as vestes e depois a carne. De descobrir-lhe os mistérios, um a um, e deixá-lo nu, enquanto o observo dormir. E depois quero deixá-lo voar, cumprir sua missão de pássaro, sobrevoar as peças do quebra-cabeça que compõem nosso vasto mundo e quando for possível encostar sua cabeça na minha, para que possamos encaixar as nossas pernas e as nossas peças.

quarta-feira, 9 de junho de 2010

Confusão pouca é bobagem.

"O homem, por natureza, é um animal confuso. E sua racionalidade, sua política, sua ciência, são confusas tentativas de enfrentar sua confusão. Portanto, não deveria causar espanto que a história de seu pensamento esteja repleta de não pretendidas e indesejadas conseqüências de um caráter irônico, filhas de um casamento de um futuro não previsível e de um presente inescrutável (unfathomable). Isto é tão verdadeiro quanto é para qualquer parte daquela seção da filosofia que eu chamo teoria da racionalidade ou da avaliação".


W.W.Bartley III

segunda-feira, 7 de junho de 2010

Carta ao desconhecido.



Caio Fernando já dizia que o tempo para às 15 horas. É o meio, é o ápice, é o começo destas letras.

Você já me conhece, um simples “e daí, qual é?” gera um conto, uma fábula. Eu não me aguento em mim (eu, me, mim, quantas sou?).

Você utiliza bem o acúmulo de informações. Digitaliza, separa em pastas, faz experimentos, arquiva. E este seu domínio faz meus pêlos ficarem ouriçados, agoniados. Mas ontem, no meu expresso divã nordeste, descobri que gósto muito do gôsto deste arrepio. Do domínio que me quebra, que não se mostra surpreso com as palavras soltas. Alias, é disso que gosto! Dos sinais que me confundem da cabeça aos pés.
Hoje, estou sem tempo. Não por falta, nem por sobra. E Cazuza pode me dizer, com aquela voz de protesto, que o tempo não para. Mas repito, hoje ele não faz sentido. Estou sem o tempo, os relógios estão parados desde a música do despertador. Ela tocou os ponteiros e disse que hoje é dia de poesia, de contra-tempo, é dia de amassar a vida com letras e com música. É dia de não olhar a agenda!
A embriaguez veio posteriormente. Estou me sentindo bêbada. Talvez seja um pouco pelo sono ou pelo deslocamento no meu próprio mundo, por ter de absorver o cotidiano da segunda-feira. Mas por uma persistência de pensamentos concluo que é pela embriaguez do teu encanto. Encanto, com canto, no meu canto, de canto, portanto...
Tenho vontade de bater de tanta coisa que queria lhe dizer e não sai. Não vai, não vem. Fica!
Bater, morder, sangrar, arranhar, lalala.

Sabe, é bom ter essa confusão por dentro. Confusão de tempo, de espaço, que infelizmente (?) um dia se encaixa de novo (ou de velho).

Abraço bem forte, com os dois braços e as duas pernas.