
Mas, me conta uma boa, ele repetia.
Calou-se por uns segundos e desviou o olhar. Ato que ele quisesse ou não representava uma essência, um modo operante e distante de existir. E no fundo, ela não desejava superá-lo. Gostava do refúgio do horizonte, como quem bebe aos lentos goles uma bebida doce e quente em dias de inverno. E a sua pergunta-afirmação sempre vinha por sedex, dizendo eu quero e quero agora, diga as respostas que lhe surgem, que nem ao menos precisam ser respostas. E ela, sinceramente, desejava lhe contar tantas tantas coisas que pensara outrora, na sua casa de longe, ou que pensava agora, com o frio na barriga típico dos momentos de desejos insaciáveis. Desejava dizer o que sentia, que no meio de tantas letras misturava-se entre impressões reais e sensações desejadas. É, ele sabia sobre aquilo que o sujeito pensa que é, mas que pode ou não pode ser, mas que ao dizer fica a dica, sabe. No fundo, ele também se sentia assim. E mesmo com todo ama, todo não-ama, ela queria mesmo contar como se sentia e como todos os ipês cor-de-rosa se tornaram mais bonitos neste ano. E ao iluminar o fundo do seu mundo, abrir a porta que permanece encostada e depois aquela que permanece trancada e depois aquela em que se encontra escrito: perigo, o refrão de bolero é apenas um refrão!
Olhou de novo para aquele rosto de espuma, suave e delicado. Repetia a pergunta mudando o tom, um pouco para se convencer, outro para ganhar tempo no tempo: “contar uma boa?”.
“Ah, já sei, vou te contar uma boa”.
Conheci uma pessoa, com cheiro de roupa limpa e com mente bagunçada. Tenho vontade de lhe rasgar por inteiro, as vestes e depois a carne. De descobrir-lhe os mistérios, um a um, e deixá-lo nu, enquanto o observo dormir. E depois quero deixá-lo voar, cumprir sua missão de pássaro, sobrevoar as peças do quebra-cabeça que compõem nosso vasto mundo e quando for possível encostar sua cabeça na minha, para que possamos encaixar as nossas pernas e as nossas peças.
Nenhum comentário:
Postar um comentário